poderão duas vidas em momentos distintos
no mesmo espaço-tempo se orbitar,
ou voarão eternamente soltas
feito ruas paralelas
fadadas à esterilidade de nunca se enlaçar?

permitem as tais leis que uma fervura esfrie
antes de demorada e lentamente amornar,
ou só me rouba o ar a pressa com que sopro
na esperança da pele não queimar?

esses fantasmas que tanto me assombram
seriam prenúncios de riscos fatais,
ou somente frutos do enorme pé de paranoias
em cuja sombra viciei desde cedo
da possibilidade do real me refugiar?

uma ferida profundamente aberta
sem pontos pode bem sarar,
ou resulta a ausência de suturas sempre
numa cicatriz torpe que por ora se esquece
até que torne a latejar?

--

--

Renato Magalhães Rocha

Renato Magalhães Rocha

escrevo — visto que morrer soa assaz trágico e apodrecer é algo físico