será, será que será que será que será?

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poderão duas vidas em momentos distintos
no mesmo espaço-tempo se orbitar,
ou voarão eternamente soltas
feito ruas paralelas
fadadas à esterilidade de nunca se enlaçar?

permitem as tais leis que uma fervura esfrie
antes de demorada e lentamente amornar,
ou só me rouba o ar a pressa com que sopro
na esperança da pele não queimar?

esses fantasmas que tanto me assombram
seriam prenúncios de riscos fatais,
ou somente frutos do enorme pé de paranoias
em cuja sombra viciei desde cedo
da possibilidade do real me refugiar?

uma ferida profundamente aberta
sem pontos pode bem sarar,
ou resulta a ausência de suturas sempre
numa cicatriz torpe que por ora se esquece
até que torne a latejar?


tem certos dias
em que não amanheço com o sol
nem mesmo um banho de água fria
me tira da apatia
de ver o mundo rodar
sem poder me esperar

fica apenas um viver
sem ser nem estar
a palavra que não sai
presa no peito, que só arde
o pensamento que nunca alivia

ainda assim, em voltas
fazendo alarde
gira o mundo
gira


viver
é velejar-se por dentro
barlavento
içar as velas, pôr-se ao centro
sotavento

marinheiro
que não sabe navegar
as águas que me formam
quando transbordo
me fazem afogar

nós
que trago comigo
tanto quero desatar
por que a floresta em que eu habito
insisto sempre em desmatar?


O empoeirado e gasto chão era um enfileiramento geométrico de tacos que suportavam, com uníssona solidão, o peso combinado do tudo mais o nada. Tacos que outrora haviam sido brilhantes e formosos antes de quase terem se afogado em beijos com a água (filha de uma inundação que causou, como a maioria dos casamentos impensados, desbotamento e inchaço). No centro daquele espaço, que parecia expandir-se a cada piscada, estava nada mais nada menos que a mais comum das mais comuns das mais comuns das cadeiras de madeira.

Ao tentar uma inusitada pose durante um acirrado jogo de estátua que fazia…


gostaria de nunca ter-lhe conhecido
que aquela noite nunca tivesse amanhecido
que nesse distanciamento houvesse algum sentido
e sua indiferença, nunca me atingido

gostaria de ser sincero ao desejar lhe esquecer
ao afirmar que nunca mais vou-lhe ver
e de não ter sempre coisa última a dizer
de não me menosprezar julgando não te merecer

gostaria que como busco a sua, buscasse minha companhia
que comigo compartilhasse medo, sonho, loucura e até fantasia
que me deixasse salpicar diversos lindos versos em sua poesia
ser seu aconchego, porto-seguro e, nas dificuldades, alforria

gostaria que não fosse toda a fonte da minha inspiração
de não cavucar, arrancando sangue, as feridas em cicatrização
que nunca tomasse meu derrame por finas gotas de precipitação
e que fôssemos sempre abertos, sem jogos de adivinhação

gostaria que, independente de qualquer coisa
fosse feliz
mesmo se comigo
ficar nunca quis

_2015


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é desproporcional
que se sinta tanta saudade
que se reviva tão repetidamente
em câmera lenta, de trás pra frente
um breve e veloz encontro?

foi um leve encostar
pareamento no sinal fechado
cinco minutinhos
interlude

não passou de chuvisco, de suspiro, de piscada
desvio de olhar que sucedeu uma encarada
nem notinha no jornal saiu
guarda-chuva nenhum se abriu

estouro de bexiga, de pipoca
de bola de chiclete, pop!
um tiro, um traque, um susto
um curta, gozada, um furto

— alô?
— desculpa, foi engano.

mas que prove despropositado não ter sido
e que amanhã, ou depois
desse cruzar
brote para a alma alimento
como os frutos que também nascem
de encontros do tamanho de um instante
— se não a mais bela —
da mais singela carícia:
o beijo das abelhas


Brilho de tolo

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quando
— após tanto vagar —
nas suas águas escuras
veio um astro se banhar
hipnotizado fitou
tal brilho o adentrar
que sequer cogitou
seus olhos elevar

esperançoso e iludido
deixou-se acreditar
que regras cósmicas
— aturdido! —
podia burlar
e que com seu rio
— louco varrido! —
exibindo belo luar
a lua estava
— quem sabe? —
a flertar

a si voltou
após duro trovejar
e foi então que distante
de relance
e fora do seu alcance
silente notou
celestial par

a lua cheia nupcial e reluzente com o misterioso firmamento estava a namorar ainda testemunhou em cacos…


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Finalmente uma música que conhecia! Fechou os olhos e teve seu corpo levado pelo som como se estivesse flutuando no ar. Reconhecia-se feliz quando sentiu forte turbulência. Saindo do transe, abriu seu olhos e voltou à realidade: seu celular vibrava.

Se confrontado, talvez não admitisse nem a si mesmo que, durante aquele mísero intervalo de tempo que levou para pegar do bolso o aparelho, passou por sua mente aquele sonho que por tantas vezes entretivera, até mesmo acordado. Tudo apontava, entretanto, que continuaria sendo apenas ilusão derradeira. Naquela noite, não mais se decepcionaria caso a realidade mais uma vez padecesse…


escrevo —
uma vez que explodir
parece muito dramático
e implodir
seria deveras lírico

escrevo —
já que existir
promete ser tão épico
e desistir
poderia até ser cômico

escrevo —
conquanto enlouquecer
seja bastante romântico
e perceber,
ainda mais melancólico

escrevo —
visto que morrer
soa assaz trágico
e apodrecer
é algo físico

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“A Lady Writing” (1665), Johannes Vermeer

Acordei. Antes de conseguir abrir meus olhos, espirrei e percebi que tremia de frio. A garganta arranhava porque já não conseguia respirar pelo nariz e, apesar do aquecedor comprado às pressas algumas semanas antes, a sensação térmica ainda era congelante. …

Renato Magalhães Rocha

escrevo — visto que morrer soa assaz trágico e apodrecer é algo físico

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