Ai, ele mora em Pinheiros, não tá acostumado!

Tem uma coisa bizarra que acontece comigo. Eu passo mal quando vejo pessoas passando mal, se machucando. Eu sei, soa extremamente frescurento… mas é o que acontece, fazer o quê.

Uma vez, eu tava com o meu namorado e uma amiga dele — um namoro recente, de uns 6 meses — no metrô, linha vermelha, sexta-feira, oito da noite. Eis que me entra um casal cheiradaço, alucinado, fazendo aquelas caretas, uns espasmos faciais, um descontrole todo… Eu não conseguia tirar os olhos da menina de olhos vermelhos, novinha, linda, com tudo de fora, e numa luta pra conseguir parar de pé. Vai vomitar. Vai cair. Vai bater a cabeça. Vai desmaiar... Vou passar mal.

Quando eu era pequeno, os dias de domingo podiam ser muito entediantes pra mim. Tinha futebol passando, meus pais bebendo e brigando. Não tinha celular nem computador. Só música. Eu amava ir pro quartinho, fechava a porta e a janela e colocava música no volume mais alto que dava, cantava junto, decorava as letras… ia me empolgando e aumentando um pouco mais o volume, vai que ninguém percebe? Quando passava do limite, meu pai aparecia do lado de fora da janela pedindo pra baixar. Mas meu irmão também gostava de se trancar no quartinho e, uma vez em que eu tinha, sei lá, uns 7 anos, eu me vi sem coisa melhor pra fazer num desses domingos, e sentei na porta de casa pra ficar olhando a rua mesmo. Sentado ali na porta da casa da Tia Lúcia, que era nossa vizinha, eu fiquei observando o nada. A rua era de mão única, os carros só desciam e, mais pra baixo, ficava o bar do Mutuca. Um buteco cheio de bêbados que passavam o dia inteiro enchendo a cara e jogando truco desde antes da hora do almoço. Acho que já eram seis da tarde, tava começando a escurecer, e uma mulher com a cabeça raspada à máquina, roupas sujas, olhos amarelos, tava cambaleando, cruzando as pernas numa corda bamba. Meu estômago já embrulhou ali… e rapidinho ela foi parar no chão. No que ela caiu, eu levantei de susto. Comecei a suar um suor frio, sentia meio que uma sensação de desligamento. Os carros seguiam descendo a rua Silva Guerra, mas não faziam mais barulho. O som da batida da cabeça dela no asfalto, parece que consigo ouvir até hoje. Um ploft oco, violento. O Chevette vinha descendo à toda, e ela tava caída na rua. Os outros bêbados não se mexeram. Vomitei.

Vou passar mal. Sinal sonoro > próxima estação: Santa Cecília. Que inferno! de novo, não. Metrô lotado, não tinha como sentar, um levantava, três tentavam pegar o lugar. O trem correndo à toda, eu me escorando nas barras de ferro já, a gravidade me arrastando, a testa molhada, firmava um joelho, o outro falhava. A menina lá, toda cambaleante, trapezista da euforia. Alguém deu o lugar pra ela, ainda bem. Mesmo sentada, a cabeça dela seguia balançando. Eu olhava pra outras pessoas, tentava reparar em outras coisas. Vai vomitar. Ela tinha no rosto uma expressão perdida, um onde-é-que-eu-tô misturado com preciso-sair-daqui. A Bia e o Leonardo conversando, o que que eles tão falando?, eu não tava entendendo, tentava disfarçar, e a visão já embaçando. Ai que vergonha, vou ter que falar. Sinal sonoro > próxima estação: República.

O Chevette freiou, eu bati a bunda no chão, tava zonzo, encharcado de suor, com o ouvido zumbindo. Logo depois, abri o portão, voltei pra casa. Não sei o que aconteceu com ela. Entrei na sala, falei que tinha visto uma mulher cair e bater a cabeça no chão, e que eu tinha vomitado. Alguém respondeu “hum”, não era um dia bom lá em casa. A postura tensa do meu pai, minha mãe apertando o lábio de cima contra o de baixo, num bico azedo. Todo domingo era aquilo: minha mãe não gostava de futebol, mas queria fazer as coisas junto com o meu pai. Ela começa a torcer, a bater palma, a xingar o juiz. Ele dá risada, satisfeito: ele ama a animação dela! Traz a cervejinha e o tiragosto!

— Gente, eu preciso descer, não tô passando bem, acho que eu vou desmaiar. — Leonardo e Bia trocaram olhares confusos. A porta abriu e eu saí em direção aos bancos da plataforma. Ainda bem que tinha banco ali! Eles atrás, preocupados, eu não caí, mas a minha pressão, sim. Sentei, suei e suei. A Bia me deu a garrafinha de água dela e falou pra eu tomar. A vergonha, meu pai. Vão achar que eu sou fresco e passei mal só porque peguei metrô lotado! Ai, ele mora em Pinheiros, não tá acostumado! Pelo menos não vomitei. Eu calado, olhando pro nada, sem graça, a sensação de ter acabado de reiniciar o sistema. Os dois olhando pra mim. Mais uns minutos e:
— Tô melhor, vamos no próximo.
— Tem certeza?
— …

Palmeiras levando de dois a zero. As coisas que meu pai mais ama na minha mãe, quando tá tudo certo, são as coisas que ele mais odeia nela, quando tudo vai mal.
— Cala a boca, ‘Liana!!! Não, sá… sai daqui! Deixa eu ver meu jogo em paz! — A cara de bravo dele. A dor nos olhos dela.
Minha mãe amava um show, amava ser o centro das atenções. Professora aposentada duas vezes, passou décadas falando alto, tentando vencer, no grito e pelo cansaço, crianças da primeira série do ensino fundalmental, chamando pra ela a atenção o tempo todo, pra ela, não existia nada pior do que um cala-boca. E ainda mais vindo dele.
— Ô Leo, cê num manda eu calar a boca, não, rapaz! — O tom irritadiço dando espaço pra surgir a afronta: — Sair daqui? A televisão é minha, essa casa também é minha, sô. Eeeu pago metade das conta, ganho mais que ocê — A risada debochada dela. O assunto que ele não gosta. Ele se remexe no sofá.
Eu, os olhos pingue-pongue de um pro outro, o frio na barriga.
— ‘Liana, ‘Liana… — O que ele não dizia: eu tô te avisando… — Nem de futebol cê gosta, cê não entende nada, fica CA-LA-DI-NHA. — O dedo em riste, mordendo a língua de raiva já. Minha respiração já em outro ritmo, coração tum-tum-tum no peito. Meu irmão ainda no quartinho ouvindo rock. O pior, eu sabia… ela vai trucar.
Vou pro meu quarto, deito na cama, travesseiro por cima da cabeça. Não tenho sono.

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Renato Magalhães Rocha

escrevo — visto que morrer soa assaz trágico e apodrecer é algo físico