Manhã de domingo

O empoeirado e gasto chão era um enfileiramento geométrico de tacos que suportavam, com uníssona solidão, o peso combinado do tudo mais o nada. Tacos que outrora haviam sido brilhantes e formosos antes de quase terem se afogado em beijos com a água (filha de uma inundação que causou, como a maioria dos casamentos impensados, desbotamento e inchaço). No centro daquele espaço, que parecia expandir-se a cada piscada, estava nada mais nada menos que a mais comum das mais comuns das mais comuns das cadeiras de madeira.

Ao tentar uma inusitada pose durante um acirrado jogo de estátua que fazia com a solitária cadeira, como se eu finalmente tivesse desvendado a verdadeira essência de uma arte há muito sufocada e perdida, olhei para cima estupefato: saltitantes suspiros acendiam todo o ambiente. Jorravam de brilhantes castiçais inteiramente constituídos pelas tranças do puro ouro dos cabelos de bailarinas acrobatas que acariciavam, de ponta-cabeça e com a sola de pálidas sapatilhas cor de rosa, o aloirado teto que tossia sorrindo. Incendiavam o infinito, cada vez que executavam perfeitos pliés, com um hipnotizante larari larara.

A música que ouvia era para aquele lugar o refúgio que o silêncio é para o nosso, e era composta por vibrações extraídas das risadas de uma criança arteira que corria a gargalhar inebriantes aromas de felicidade. Excitava-se mais e ainda mais sempre quando e porque, em tom de bronca e esperando justamente pelo efeito contrário, um homem gritava o bonito abraço daquelas oito letras que formavam juntas o seu nome — e também o da música que não tinha fim — implorando que, por favor, parasse!

Todo ensaboado por tons de amêndoa, era um mundo inteiramente sépia, vigiado de lado a lado por âmbares vitrais na forma de grandes olhos iluminados, de dentro para fora, por eternos sóis roubados de mornas tardes de outono. Explorando o que havia à minha volta acabei por colher, das árvores plantadas nas paredes logo abaixo dos vitrais que tudo viam (e a todos contavam), algumas nuvens que levei instintivamente à boca. Minha língua derreteu-se com aquela textura de fumaça de óleo queimado e soube (apenas e simplesmente por ter sabido), que o alimento típico da região que eu degustava naquele momento era o prazer e ele dava, feito jabuticabas, agarrado em troncos retorcidos que tocavam-se tentadoramente.

Voltei a mim quando, puxando minha alma de volta pra dentro de mim, você me arrancou dos meus devaneios com traiçoeiras cócegas nos meus sovacos.
Disfarçando que apercebia-me um pouco mais naquele momento, só pude murmurar três palavras:

— Tá com fome?

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escrevo — visto que morrer soa assaz trágico e apodrecer é algo físico

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Renato Magalhães Rocha

escrevo — visto que morrer soa assaz trágico e apodrecer é algo físico